quinta-feira, 17 de junho de 2010

andywarhol


"Tenho de tirar as minhas asas." Eu uso cinco asas cosméticas: uma debaixo de cada olho, uma de cada lado da boca e uma na testa.
"Diga de novo."
"Eu disse que tenho de tirar as minhas asas."
Será que B estava gozando das minhas asas? "Todo dia é um novo dia", eu disse. "Porque não consigo me lembrar do dia anterior. Então agradeço às minhas asas.""Ah, meu Deus", ela suspirou. "Todo dia é um novo dia. Amanhã não é tão importante, ontem não foi tão importante. Eu estou pensando mesmo é no hoje. E a primeira coisa que eu penso sobre hoje é como eu vou economizar uma grana. Fico esperando na cama que me ligue alguém com quem eu quero falar. Assim eu economizo pelo menos o custo da ligação."
"Eu pulo direto da cama. Pra lá, pra cá, na ponta do pé, danço, qualquer coisa para não pisar nas cerejas cobertas com chocolate que estão espalhadas por todo o chão feito minas terrestres. Mas eu sempre piso em alguma. Sinto o chocolate..."
"não estou escutando. não entendo o que você está dizendo."
"Eu disse que me dou conta de que é uma sensação que eu gosto."
"Eu levanto e ando na ponta do pé. Tenho medo de acordar os meus hóspedes tão cedo e quando escorrego numa cereja coberta com chocolate eu detesto isso, porque me faz lembrar quando vou colocar mel em cima de alguma coisa e aí, nossa, a faca está suja, e derrubo no carpete; não sei como mel sempre escorre. Mel devia vir numa embalagem que esguichasse - igual ketchup em drive-in."
"Vou de quatro até o banheiro porque não posso ir pra lá, pra cá, andar na ponta do pé nem dançar com uma cereja coberta com chocolate no meio dos dedos. Chego à pia. Levanto o corpo devagar e abraço a coluna."
"Eu não faço isso", B disse. "Eu fico com a cereja coberta com chocolate no meio dos dedos do pé, aí sento numa posição de ioga e tento chegar o pé até a boca para lamber o resto da cereja coberta com chocolate. Aí, vou pulando até o banheiro para não espalhar mais cereja com chocolate pelo chão. Quando chego lá, tenho de levantar a perna até a pia e lavar o pé."
"Tenho certeza de que vou olhar no espelho e não ver nada. Estão sempre dizendo que eu sou um espelho e se um espelho olha num espelho o que tem para ver?"
"Quando eu olho no espelho, eu só sei que não me vejo como os outros me vêem."
"Por que isso, B?"
"Porque eu olho para mim do jeito que eu quero me ver.
Faço expressões só para mim. Não faço as expressões que as outras pessoas me vêem fazer. Não retorço os lábios dizendo 'Dinheiro?'."
"Ah, dinheiro não, B, vá." Essa B é rica, então, é claro, só pensa numa coisa.
"Uns críticos me chamaram de o Eu do Nada, e isso não ajudou nada meu senso de existência. Aí, eu entendi que a existência em si não é nada e me senti melhor. Mas ainda fico obcecado com a idéia de olhar no espelho e não ver ninguém, nada."
"Eu fico obcecada", B disse, "com a idéia de olhar no espelho e dizer 'Não acredito. Como eu posso ter a publicidade que eu tenho? Como posso ser uma das pessoas mais famosas do mundo? Olhe só para mim!'."
"Dia após dia eu olho no espelho e ainda vejo alguma coisa - uma espinha nova. Se a espinha que eu tinha no alto do lado esquerdo sumiu, aparece uma nova embaixo, no maxilar, perto da orelha, no meio do nariz, debaixo dos pêlos da sobrancelha, bem no meio dos olhos. Acho que é a mesma espinha que muda de lugar." Eu estava falando a verdade. Se alguém me perguntasse: "Qual o problema?" Eu teria de responder: "A pele."
"Eu molho uma bola de algodão Johnson and Johnson no álcool Johnson and Johnson e esfrego o algodão na espinha. O cheiro é tão bom. Tão limpo. Tão frio. E enquanto o álcool está secando, eu não penso em nada. Como isso está sempre na moda. Sempre de bom gosto. Nada é perfeito... afinal, B, é o oposto de nada."
"Para mim, pensar no nada é, assim, impossível", disse B. "Não consigo pensar nisso nem quando estou dormindo. Tive o pior sonho da minha vida essa noite. O pior pesadelo, quero dizer. Sonhei que estava numa reunião em algum lugar e tinha uma reserva de avião para voltar para casa e ninguém me levava. Em vez disso, ficavam me trazendo para esta casa, para olhar umas obras de arte para caridade. Eu tinha de subir a escada e olhar todas as pinturas. E tinha um homem na minha frente que ficava dizendo 'Vire! Você não viu essa!', eu dizia, 'Sim, senhor!'. Era uma parede curva que acompanhava uma escada curva, pintada de amarelo de alto a baixo, e ele dizia, 'Bom, a pintura é esta'. Eu disse: 'Ah.' Aí, saí com um homem de terno cinzento e pasta na mão que desceu para colocar mais 15 centavos no parquímetro, mas o carro dele não era um carro, era um sofá, então eu entendi que ele não podia me levar para lugar nenhum. Foi quando eu tentei parar uma ambulância.
Fiquei nervosa de ter de ir à festa outra hora. Outro homem me arrastou de volta para a pintura e disse: 'Você não viu tudo ainda.' Eu disse: 'Já vi tudo.' Ele disse: 'Mas não viu o homem lá embaixo colocando 15 centavos no carro dele.' Eu disse: 'Ah! Aquilo não é o carro dele, é o sofá dele. Como é que eu vou para o aeroporto num sofá?' Ele disse: 'Não viu quando tirou um caderno preto do bolso e escreveu 15 centavos? Ele disse que foi a reunião mais longa em que já esteve. É dedutível do imposto. É uma obra de arte. Essa é a obra dele, colocar 15 centavos no estacionamento do sofá.' Entendi que não tinha dinheiro para pagar minha reserva do avião - eu tinha feito a reserva e cancelado quatro vezes. Então fui até uma casa com telhado de madeira perto da praia e catei conchas. Eu queria ver se conseguia entrar em uma concha quebrada, e tentei, A, tentei mesmo. Enfiei o alto da cabeça e a minha presilha no buraco. Um fio do meu cabelo e a presilha. Voltei para a reunião e disse: 'Você poderia, por favor, colocar um motor no sofá desse homem para eu poder ir para o aeroporto?'"

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